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EXPOSIÇÃO
Macbeth mauser
21ª Bienal de São Paulo - Fundação Bienal de São Paulo - 1991
A instalação Macbeth mauser. Apresentada na XXI Bienal de São Paulo, a obra articulava elementos escultóricos e espaciais em diálogo com referências literárias e políticas, tensionando poder, violência e representação. Inserida no contexto de uma Bienal marcada pela diversidade de linguagens e pela retomada da inscrição aberta, a instalação evidenciou a pesquisa do artista em torno da materialidade, da dramaturgia e da construção simbólica do espaço, consolidando sua presença no circuito institucional brasileiro no início da década de 1990.
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Macbeth mauser instala-se na intersecção das Artes Plásticas com as Artes Cênicas, uma região muito rica, mas pouco explorada entre nós, por descaso, preconceito e incompetência. O trabalho de Adriano Guimarães, Fernando Guimarães e Ricardo Junqueira levanta vários tipos de questões. Numa discussão plástica acadêmica, que divide um quadro em figura e fundo, o cenário teatral poderia, também em termos acadêmicos, ser o fundo para as figuras dos atores. Macbeth Mauser inverte a situação, questiona o que é cenário, isola-o da sua realidade teatral e, a partir do seu conteúdo plástico, dá a ele a condição de. sujeito do discurso artístico.
A instalação pode ser vista como uma arqueologia da tragédia, usando o elemento expressivo que sobrou depois dela acontecida. Roupas e objetos estão espalhados na terra, como se o local tivesse sido abandonado às pressas, tanto que as velas foram deixadas acesas. Temos a sensação de estar presente ao day alter da situação documentada. Mas, aos poucos, vemos o trabalho do Tempo no ferro oxidado, na cera derretida das velas. Começamos a perceber que estamos percorrendo um rico sítio arqueológico e que o ontem pode ser histórico e metafórico, não temporal. A questão que se propõe é: O que é real? Qual será o ontem? O das velas ainda acesas ou o do metal já corroído pela ferrugem, que trabalha lentamente?
Quem teriam sido os habitantes ~essa Pompéia sem lavas? Que ambição teria impulsionado os donos dos trajes sensuais e bárbaros? Por que teriam deixado para trás seus símbolos de poder? Que desespero os teria levado à apressada fuga? As imagens deterioradas seriam desses incógnitos habitantes ou representariam figuras do seu passado? Todas as respostas são possíveis e essa ambigüidade enriquece o clima da instalação e nos remete a outro tipo de questão, a da relação tempo/espaço, proposta pelo trabalho. A situação trágica sugerida é compactada no tempo da visita e no espaço da instalação. Os muitos tempos e lugares que levaram àquela situação limite, que apenas vislumbramos, estão reduzidos a um só, diferentes do tempo e do espaço reais, mas que criam uma nova realidade - ou uma irrealidade poética - que compacta o universal, que é pressentido, no particular, que é vivido pelos visitantes.
Ao fim da visita, atordoados pelo clima apocalíptico experimentado, percebemos o bíblico retorno ao pó, que a todos espera. E compreendemos a religiosidade primitiva que emana do local, espaço sagrado, de sacrifício.
Afinal, os deuses da Arte são pagãos e sabem como cobrar o seu tributo de sangue
JOÃO CÂNDIDO GALVÃO
CURADOR DA 21' BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO

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